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A disputa pelo poder

Ela gera descrédito no discurso político, mas se afastar do processo eleitoral não ajuda você nem o Brasil. Saiba por quê.
Imagem: Revista Conexão 2.0.

Neste mês de outubro, 11 candidatos disputam a presidência do Brasil, posição mais elevada do governo. Além da pessoa que vai dirigir o país, serão escolhidos os nossos representantes em diferentes setores públicos, como governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Mas, às vésperas das eleições, ainda tem gente perdida como o palhaço Tiririca que, em 2010, quando foi candidato a deputado federal, disse não saber para que servia a política nem os políticos.

Na época, o humorista ganhou a atenção dos eleitores com os bordões “o que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto" e "Pior do que tá não fica, vote Tiririca". Ironicamente, ele foi o deputado mais votado do Brasil, com quase 1,5 milhão de votos. A vitória de Tiririca nas urnas sugere pelo menos duas coisas sobre o eleitorado brasileiro: desinteresse e descontentamento. Afinal, elegemos um palhaço como nosso representante!

O ponto é que a política rege a sociedade, mas o brasileiro nem sempre se dá conta disso. Mesmo com o possível despertamento de uma geração, exemplificado nas manifestações populares históricas de junho do ano passado, ainda é preciso avançar. Foi por essa razão que a Conexão 2.0 dedicou esta matéria de capa para explicar o bê-a-bá do processo eleitoral e mostrar a experiência de alguns jovens que se interessam pela política e procuram participar ativamente dela.

Falando grego
Você deve estar pensando: “Ok, acompanhei as manifestações, mas o que isso tem a ver comigo?” Tudo, porque querendo ou não, todos somos políticos. Estamos envolvidos diariamente em questões de implicações coletivas, da vida em sociedade, como o acesso ao atendimento de saúde de qualidade, o ingresso em universidades de ponta, a sensação de insegurança ao voltar da faculdade à noite e o polêmico preço das tarifas do transporte público.

Portanto, para começar, é importante saber que, se hoje o discurso dos políticos parece soar em “grego”, foi o povo da Grécia que deu uma grande contribuição para a organização das sociedades. A política surgiu há 2.500 anos, com os cidadãos que procuravam uma forma de melhor governar Atenas.

A palavra é derivada do grego politheia. O termo refere-se a todos os procedimentos utilizados para administrar a cidade-estado (pólis). O poder, antes centrado apenas em mãos autoritárias, foi dividido entre a elite ateniense que passou a assumir funções públicas, representando o povo dentro do governo.

Primeiramente, a seleção dessas pessoas foi feita por meio de sorteio. Quem conseguia uma vaga na gestão da pólis ganhava até salário. Mais tarde, foi adotado o voto. A população também podia acompanhar as reuniões realizadas em praça pública, ficando por dentro de tudo que acontecia. Ironicamente, séculos depois, boa parte dos brasileiros parece distante desse processo.

O povo é quem manda, só não sabe

Desde 1889, o Brasil adotou a república como sistema de governo. No dia 15 de novembro daquele ano foi declarado o fim da monarquia, um marco da nova era na qual ingressava o país. Fomos os últimos do continente americano a adotar esse modelo. Diferentemente da monarquia, a república permite aos brasileiros a participação no processo democrático, por meio do voto, como faziam os atenienses.

Mas só votar não é o suficiente. O povo precisa acompanhar de perto como a máquina pública é administrada, reivindicar seus direitos junto a seus representantes e ser responsável em cumprir seus deveres. Porém, segundo especialistas, nos últimos anos, os brasileiros têm demonstrado desinteresse nas eleições, e acabam votando por obrigação ou se abstendo do voto.

“As eleições parecem ter perdido um pouco de espaço para outras formas de participação, como os protestos, juntamente com o declínio da confiança dos cidadãos em instituições políticas, especialmente partidos políticos e o Poder Legislativo”, explica o cientista político Guilherme Arbache. Mesmo assim, Arbache acredita que o voto ainda é o maior instrumento de poder na mão do povo. “As eleições ainda são a expressão máxima do processo democrático”, resume.

No Brasil, o modelo político adotado é o da democracia representativa. Por meio dela, líderes políticos representam o povo nas variadas esferas públicas. De acordo com a Constituição, todo brasileiro pode cobrá-los, fazendo valer seus direitos de cidadão.

Em outras palavras, se você estiver descontente com aquele buraco gigantesco na sua rua, é possível conversar com o vereador da sua cidade, o mesmo em quem você votou ou não, e pedir a ele satisfações. A atitude serve também para outros casos, como postos de saúde superlotados e escolas sem professores.
Esses representantes atuam mais especificamente nos chamados três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Apesar de distintos, eles estão interligados e o funcionamento deles é o que torna a democracia mais sólida e eficaz (veja o tópico “Tripé político”).

Na prática
Para entender um pouco mais como funciona a política, nada melhor do que começar pelas eleições. No início de julho, os interessados realizaram junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o registro de suas candidaturas para o pleito de 2014. Neste ano, a disputa conta com 11 presidenciáveis: três mulheres e oito homens. Enquanto que para os cargos de governador, senador e deputado competem 26.127 pessoas. Em outubro, caberá a 142.822.046 eleitores decidir quais deles serão os novos líderes do Estado.

Na última eleição presidencial, em 2010, mais de 135 milhões de pessoas votaram, sendo 2,3 milhões de jovens entre 16 e 17 anos. Mas essa representação caiu. Apesar de o número total ter aumentado, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral, apenas 1,6 milhão de jovens da mesma faixa etária votarão este ano – 700 mil a menos que em 2010 (ano que já tinha registrado queda em comparação com 2006). É interessante entender o comportamento desse grupo que vota facultativamente, já que para os demais a participação na eleição é obrigatória.

A tecnologia e o voto
O processo é apurado a partir da contagem das urnas eletrônicas. Mas nem sempre foi assim. Na época da República Velha, o voto era feito em papéis e levava meses para que os brasileiros soubessem quem seria eleito. Normalmente, os votos eram transferidos de todas as cidades do Brasil para o Rio de Janeiro, em meio às limitações de transporte da época, o que colocava em xeque a confiabilidade do resultado.

As coisas mudaram um pouco em 1881 com a Lei Saraiva, ainda nos tempos do império. É que a lei impôs a criação do título de eleitor, estabeleceu eleições diretas e determinou que só poderia votar quem tivesse mais de 21 anos, fosse alfabetizado e possuísse renda superior a 200 mil contos de réis.

Menos de um século depois, foi criado o primeiro Código Eleitoral brasileiro, então prevendo o uso de uma “máquina de votar”. Somente entre as décadas de 80 e 90 é que surgiram as urnas eletrônicas. No entanto, 765 cidades já usarão urnas biométricas e sistema digital de registro de voto neste ano. Em duas delas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bento Gonçalves (RS) e Florianópolis (SC), haverá um projeto-piloto de votação mista: com e sem identificação biométrica.

Dos eleitores, 23,8 milhões estão cadastrados biometricamente e deles 21,6 milhões votarão após autenticação do voto com as digitais na eleição deste ano. Essa forma de votação, independentemente do tipo da urna, é considerada democrática, uma vez que a escolha de todas as pessoas tem o mesmo peso e vale a soma da maioria das intenções.

Em outros países, cuja democracia também é o sistema vigente, o voto é optativo. Assim, só vota quem quiser, e aquele que se abstém não é multado em 3,50 reais, como no Brasil. Canadá, Estados Unidos, El Salvador, Cuba, Colômbia e Paraguai são alguns dos países em que o voto não é obrigatório.

Por que participar?
Mas como se envolver com política e por que fazer isso? No Brasil, apenas 9% dos jovens se consideram politicamente participantes, seja pelo engajamento em algum comitê partidário ou em coletivos e diretórios. E os demais? Segundo a pesquisa Agenda Juventude Brasil 2013 que apresentou este dado, 38% da jovens não gostam e não se envolvem com política.

A razão desse fenômeno pode estar relacionada ao desinteresse, mas também ao analfabetismo político. Nas grades estudantis, por exemplo, não há uma matéria de educação política que ensine o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro ou a administração nacional. No máximo, o assunto é pontuado na disciplina de Geografia.

Experiência positiva
Porém, da cidade de Guajará-Mirim, em Rondônia, vem um bom exemplo de alguém que contrariou essa lógica. Francisco Kelvin, de 17 anos, tem uma opinião bem firme sobre tudo o que tem a ver com política. “Nossas relações no dia a dia são atos puramente políticos. Nossa vida é política”, pontua. “Nesse sentido, sempre me coloquei como tal e sempre procurei exercer isso: na escola, em casa, na minha militância...”, relata, mostrando seu interesse pelo tema.

O estudante apresenta outro ponto de vista sobre o desinteresse dos jovens pela política: “É que nossa política é chata. Essa talvez seja a questão. Nossos políticos estão ultrapassados. Falam chatices. E o jovem sabe disso”, opina.

Apesar de não ser um tema indigesto, Kelvin sempre gostou do assunto, o que o levou a se engajar logo cedo. Aos 15 anos, ele já participava do projeto Protagonismo Juvenil e da Patrulha Eleitoral – iniciativas que estimulam o adolescente a desenvolver atividades além dos interesses individuais na cidade em que vive.

Como tomou gosto, Kelvin não parou. Um ano depois, envolveu-se no movimento estudantil na escola e na comunidade e então nos programas Parlamento Jovem e Jovens Embaixadores, no qual ganhou uma viagem para os Estados Unidos, realizada em janeiro.

Mais perto do parlamento
O Parlamento Jovem é uma iniciativa da Câmara dos Deputados que seleciona menores de idade para passar uma semana em Brasília a fim de conhecer a rotina dos parlamentares. Já o projeto Jovens Embaixadores é um programa criado em 2002 e busca beneficiar os alunos brasileiros da rede pública de ensino que se destacam por sua atuação comunitária. Os selecionados passam três semanas nos Estados Unidos.

Ambas as experiências foram significativas para Kelvin mas, por meio do Parlamento Jovem ele entendeu melhor o sistema legislativo brasileiro. “Fiquei uma semana em Brasília trabalhando como deputado. Foi uma experiência riquíssima, vivenciei um pouco do nosso processo legislativo, vi o quanto ele é lento e cansativo, porém de suma importância para nós”, avalia.

Kelvin não sonha em assumir um cargo eletivo. Ele prefere a militância e sonha, na verdade, em se formar em Biologia ou Geografia, mas sempre continuar na luta por uma reforma política. Mas, caso um dia se candidate a algo, será para uma função legislativa e não executiva, ele garante.

Militância com e sem partidos
Mas para quem tem convicções alinhadas às de partidos, vale a filiação. Coisa que o estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, Kauê Scarim, de 22 anos, fez. Scarim milita desde 2011 no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Hoje ele também é diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE) e militante no coletivo da juventude do PSOL, o JSOL. De acordo com ele, dos aproximados 89.222 mil filiados ao partido, um terço são jovens.

No Brasil existem 32 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral e mais de 15 milhões de pessoas filiadas a eles. Segundo o TSE, “a filiação partidária é o ato pelo qual um eleitor aceita, adota o programa e passa a integrar um partido político”. O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) é o que soma mais filiados, ultrapassando 2 milhões de pessoas. Já o Partido da Causa Operária (PCO) é o que tem menos, apenas 2,6 mil filiados.

No entanto, politização não tem ligação direta com partidarização. Pode-se ser uma pessoa politizada, mas sem estar filiado. É o caso de muitos jovens que exercem influências positivas em suas comunidades ou que lutam por um bem comum.

No ano passado, as manifestações pela redução da tarifa dos ônibus foram conduzidas por jovens, sobretudo estudantes. Havia os partidários no meio do movimento, como Scarim, mas uma grande maioria não era filiada. O que abre mais uma vez a margem para mostrar que politização não tem que ver com partidarização.
Pensamento defendido também por Kelvin que, por algum tempo, teve ideais muito alinhados aos da cartilha petista, mas que não se considera um militante do partido, e sim das bandeiras que defendem uma reforma política.

Religião e política
Vivemos em um Estado laico, termo de origem latina (laicus) que significa sem religião ou secular. Sendo assim, o Brasil não possui uma religião oficial. Essa posição ajuda a garantir, por exemplo, que ateus e religiosos de várias matrizes, sejam maioria ou minoria, tenham os mesmos direitos de expressar sua fé ou descrença.

Conforme está escrito na Constituição, no Art. 5º, Inciso VI, "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias".

Quem estudou em nível doutoral a relação entre o Estado e as organizações religiosas foi Josias De Benedicto, professor do curso de Direito do Unasp. Segundo ele, nessa discussão costuma haver confusão com a definição de termos como "Estado laico", "igreja e Estado", "liberdade de crença" e "liberdade religiosa”.

De acordo com Josias, “o ideal de um estado laico é efetivar uma separação entre ‘religião e estado’ e não apenas separar ‘igreja e estado’”. É importante entender que “religião é o todo; igreja é parte”. Ou seja: “se igreja é um símbolo religioso do cristianismo, ela não é do islamismo (mesquita) e do judaísmo (sinagoga)”, diferencia. Confusão semelhante ocorre com as expressões "liberdade de crença" (qualquer tipo) e "liberdade religiosa" (crença especificamente religiosa).

Cristãos no debate
De acordo com o professor, no que diz respeito aos cristãos e à política, infelizmente, há um mal-entendido em boa parte das igrejas. Para ele, devido a ideias distorcidas vindas dos púlpitos, os fiéis são induzidos a não se inteirarem na política. “Muitos líderes cristãos pregam uma suposta incompatibilidade entre vida cristã e vida política, confundindo politicagem com política. Grande erro!”, observa Josias, alertando ainda para o fato de que “não participar da vida político-democrática significa correr o risco de ser governado por descrentes que abominam a Deus”.

Contra a maré dos cristãos que preferem não entrar em discussões políticas, o funcionário público Diego Fortunato considera importante estar atento ao cenário político em que vive. Aos 30 anos de idade, o adventista do sétimo dia já votou em seis eleições. Para ele, votar conscientemente garante inclusive a segurança dos próprios cristãos. “É preciso estar consciente se o candidato é liberal ou conservador, se ele segue uma linha democrática ou se seu partido tem ligação histórica com ditaduras e regimes comunistas que reprimem o cristianismo e qualquer liberdade religiosa”, adverte.

Na Bíblia é possível ver representantes do povo de Deus envolvidos em questões civis. José, Moisés, Ester e Daniel, todos tiveram contato com os governantes de sua época. José foi governador no Egito. Similarmente, Daniel alcançou o topo do poder civil em Babilônia, e aquela nação foi beneficiada por isso. Mais tarde, o profeta teve influência no governo medo-persa dos imperadores Ciro e Dario. No Novo Testamento, há registro de Paulo pregando para o alto escalão do Império Romano. E assim foi com os cristãos ao longo da história.

Segundo Márcio Costa, professor de Teologia do Instituto Adventista Paranaense (IAP), Ellen G. White, uma das pioneiras da Igreja Adventista, era favorável e encorajava os jovens para que se candidatassem a cargos públicos. “No entanto, ela advertia que, tal qual José no Egito, a religião deve ser o esteio de todas as decisões. Não pode haver incoerência entre o exercício da função e a prática da fé”, complementa o especialista em história do adventismo.

Na visão do teólogo, o estado e a igreja exercem funções complementares e, em alguns tópicos compartilham a mesma agenda, como a promoção da justiça e da paz e o investimento em saúde e educação. “Ao estado compete a manutenção da ordem social por meio do cumprimento das leis, o que envolve punição ou recompensa e, à igreja cabe a transformação pessoal por meio do evangelho”, define.

Ao falar sobre a importância do perfil do candidato a ser escolhido, ele aconselha que os cristãos analisem, além das propostas e capacidade administrativa do político, como o discurso e a conduta dele revelam seus princípios morais (veja o tópico “Cartilha”). “O voto, portanto, é um dispositivo que a democracia nos dá de representar a vontade de Deus”, conclui o teólogo Márcio Costa.

Tripé político
Executivo. Está dividido em três níveis: federal (presidente), estadual (governador) e municipal (prefeito). É responsável pela execução de programas em áreas como educação, saúde, agricultura, habitação, saneamento e prestação de serviços públicos.

Legislativo. Também é divido em três níveis: municipal (vereadores), estadual (deputados) e federal (deputados e senadores). São os parlamentares que devem fazer do legislativo o principal fórum de debate social, ouvindo a população e a representando em suas decisões. Eles também fiscalizam o Poder Executivo.

Judiciário. Pune quem não cumpre a lei e protege os direitos individuais e coletivos dos brasileiros. É dividido por áreas: federal, estadual, do trabalho, eleitoral e militar. Os juízes ou magistrados são selecionados via concurso público.

Cartilha
Assim como outras denominações, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem orientado seus membros sobre a postura da organização em tempos de eleição. Seguem abaixo as principais diretrizes.

A igreja, suas instituições e funcionários não manifestam apoio a nenhum regime político, partido ou candidato. Ela é apartidária. Por isso, não mantém bancada de parlamentares e nem permite que seus templos, reuniões e materiais sejam usados para propaganda eleitoral.

A igreja recomenda que seus membros participem das eleições e que votem em candidatos que: (1) combatam as drogas legais e ilegais; (2) defendam e liberdade religiosa, a separação entre igreja e estado e a proteção à família; (3) e que tenham propostas concretas para melhorar a vida da população.

A igreja desaconselha que candidatos adventistas peçam votos em reuniões oficiais e solicita que eles deixem suas funções na congregação local durante a campanha. Para se candidatar, pastores e funcionários da igreja devem se desligar da organização. Adventistas eleitos não são representantes da denominação no parlamento ou poder executivo.

Fonte: Documento “Os adventistas e a política”, redigido pela sede sul-americana da Igreja Adventista e publicado na Revista Adventista de setembro de 2014, nas páginas 12 e 13.

Saiba quem (não) representa você

Câmara dos Deputados: representa o povo brasileiro, legisla sobre os assuntos de interesse nacional e fiscaliza a aplicação dos recursos públicos. Durante quatro anos, os 513 deputados federais criam, reformulam e votam leis (www2.camara.leg.br).

Senado Federal: além de aprovar leis e fiscalizar o Poder Executivo, os 81 senadores podem processar e julgar o presidente da República, regulamentar as agências reguladoras e suspender a execução de leis julgadas pelo STFcomo inconstitucionais. Cada estado elege três senadores para um mandato de oito anos (www.senado.gov.br).

Presidência: governa o povo e administra os interesses públicos; exerce o papel de chefe de Estado e de governo; e executa as leis elaboradas pelo Poder Legislativo, mas também pode iniciar esse processo. É eleito(a) para um mandato de quatro anos, com possibilidade de reeleição (www2.planalto.gov.br).

(Isadora Stentzler e Rafael Acosta - Revista Conexão 2.0)

Pessoas materialistas são mais infelizes


Não importa quanto as tecnologias de mapas e GPS avancem, encontrar a felicidade nunca será uma tarefa fácil. Mais: nunca haverá só um caminho possível.

O curioso é que algumas pessoas têm uma facilidade muito grande em associar a felicidade com bens materiais, de forma que “quanto mais coisas eu tenho, mas feliz eu sou”. Será mesmo?

De acordo com um estudo realizado pelos pesquisadores da Universidade Baylor, nos Estados Unidos, as coisas não funcionam bem assim. Aliás, é o contrário. Segundo o estudo, publicado na revista americana Personality and Individual Differences, pessoas materialistas são mais propensas a serem deprimidas e insatisfeitas com a vida, em grande parte porque acham mais difícil ter gratidão pelo que elas têm.

Jo-Ann Tsang, autora principal do estudo, intitulado “Porque materialistas são menos felizes? O papel da gratidão e necessidade de satisfação na relação entre materialismo e satisfação com a vida”, professora associada do núcleo de psicologia e neurociência da Universidade Baylor, explica melhor: “A gratidão é um estado de espírito positivo. Trata-se das outras pessoas. Pesquisas anteriores feitas por nós e outras equipes mostram que as pessoas são motivadas a ajudar quem as ajuda – e a ajudar os outros também. Nós somos criaturas sociais e assim nos concentramos em outras pessoas de uma forma positiva que faz bem à nossa saúde”.

Mas, quando uma pessoa é materialista, ela não segue essa lógica. Pessoas materialistas tendem a ser centradas nelas mesmas. e apenas nelas.

E como isso explica o fato de pessoas assim serem mais infelizes?

“Nossa capacidade de adaptação a novas situações pode ajudar a explicar porque ter mais coisas não nos faz mais feliz”, disse o coautor do estudo, James Roberts, professor da Escola de Negócios da Universidade de Baylor.

“À medida que acumulamos mais e mais bens, nós não ficamos mais felizes. Nós simplesmente aumentamos o nosso ponto de referência”, disse ele. É como se nos acostumássemos muito rápido a um novo padrão de vida. E, assim, imediatamente passamos a querer algo mais.

Vamos supor que você tenha sonhado a vida toda em ter uma casa grande e depois de muito trabalho, conseguiu comprar uma. “Essa nova casa de 2.500 metros quadrados, então, se torna a base para nossos desejos de ter uma casa ainda maior”, exemplifica o professor. Isso se chama “esteira de consumo”. Continuamos a comprar cada vez mais coisas, mas nunca chegamos mais perto da felicidade. Adquirir mais bens só acelera cada vez mais a tal da esteira.

Amostra

Os resultados do estudo foram baseados em uma análise de 246 membros do departamento de marketing de uma universidade particular de médio porte localizada no sudoeste dos Estados Unidos, com uma idade média de 21 anos entre os estudantes que participaram da amostra. Cada um deles respondeu um questionário de 15 minutos, usando uma escala de 15 itens de materialismo.

Pesquisas anteriores sugerem que os materialistas são, em geral, menos satisfeitos com suas vidas. Eles são mais propensos a serem infelizes e têm baixa autoestima. Também são mais propensos a serem menos satisfeitos com suas relações e menos envolvidos em causas sociais.

Enquanto isso, aqueles que são mais gratos pelo que conquistaram têm mais probabilidade de encontrar mais sentido na vida e serem, assim, mais felizes.

É como diria o filósofo grego Epicuro: “Não estrague o que você tem desejando o que não tem. Lembre-se que o que você tem agora é o que um dia você sonhou”. [medicalxpress]

(Hypescience)

[HR] Melhor do que qualquer filosofia, a Bíblia já declarava: "Não ameis o mundo, nem o que no mundo há." (1 João 2:15) Sim, Deus deseja dar aos seus filhos a real felicidade. Para tanto, deixou instruções infalíveis em Sua Palavra - a Bíblia Sagrada - em forma de conselhos, advertências e orientações. As pesquisas e a ciência moderna comprovam isso diariamente.

Dança ao Senhor?


A experiência do templo mostra que Deus indicou um padrão de louvor

O Salmo 150 tem sido um dos mais importantes estímulos para o louvor a Deus. Esse hino indica a quem adorar, o espaço primordial do louvor, a motivação para fazê-lo e quem deve louvar. Ao mesmo tempo que inspira o louvor, no entanto, esse salmo também tem inspirado debates porque ele fala acerca de como louvar.

Não há qualquer problema com a afirmação de que “todo ser que respira” deve adorar a Deus, por suas grandes obras, em seu santuário. No entanto, quando o salmista indica um conjunto de instrumentos e diz que devemos louvar a Deus com “danças” (Salmos 150:4), de inspirador o salmo tem se tornado polêmico.

Certos carismáticos têm visto aí uma indicação clara de que a agitação e o ritmo de danças seculares são perfeitamente adequados para louvar a Deus, desde que a poesia seja cristã.
De que tipo de dança fala o Salmo 150 é difícil de saber.

Esse salmo significa que tambores, ruídos e danças são aceitáveis como culto a Deus? Numa leitura superficial, parece claro que o culto protestante tradicional, focado no estudo da Bíblia e emoldurado por hinos reverentes, está longe de atender à recomendação do salmo. Enquanto que um culto dinâmico embalado por música envolvente, emocionante e de ritmo acentuado parece muito mais próximo.

Como entender a recomendação do salmista?

O sentido de qualquer texto só se alcança quando estudado a partir do contexto. Quem escreveu o Salmo 150? Quando foi escrito? Essas questões básicas poderão revelar a compreensão do salmista acerca do louvor.

Os salmos oferecem dificuldades a mais para o estudo por serem composições que se destacam com facilidade de seu contexto, passando a falar por si mesmos, como obra de arte. Contudo, a obra de arte tem um sentido, que deve ser visto através do contexto. Embora pareça claro o que autor quer dizer no Salmo 150, o contexto pode mostrar outras perspectivas.

O objetivo deste artigo é expor o sentido do Salmo 150 a partir da identificação de seu contexto, que seja uma breve história bíblica do louvor em Israel. Todo estudo da Bíblia precisa ser embasado em noções metodológicas oferecidas pela própria Bíblia. Este estudo está apoiado na crença de que a Bíblia é seu próprio intérprete. Ela é suficiente em si mesma porque oferece as chaves para sua interpretação. Um texto obscuro é esclarecido por outros mais claros. Há uma unidade intrínseca à Bíblia, fruto de sua inspiração divina, sendo Deus seu autor final. A verdade revelada só pode ser obtida quando se alcança o significado original pretendido pelo autor. Isso implica que o contexto histórico e literário elucida o texto. Cada palavra deve ser entendida a partir de seu significado original.

Sendo que a Bíblia é suficiente em si mesma, ela deve oferecer luz acerca de quaisquer aspectos da vida cristã envolvidos no grande conflito. Algumas pessoas pensam que a Bíblia nada tem a dizer acerca de música de adoração. Deve-se lembrar, no entanto, que a adoração é o ponto crucial de início ao fim do grande conflito entre Deus e o adversário. Sendo assim, a Bíblia certamente tem muito a ensinar acerca do assunto.

Música e dança em Israel

De que tipo de dança fala o Salmo 150? A resposta para esta pergunta pode ser o ponto de partida para o entendimento do salmo. Ela deve ser buscada nas evidências linguísticas e no contexto bíblico amplo do salmo.

Que tipo de dança faziam as mulheres israelitas para seus maridos quando estes retornavam vitoriosos da guerra? A dança das mulheres para Deus após o Mar Vermelho teria sido diferente de suas danças costumeiras? Não há uma indicação clara acerca dessa possível diferença. Nada parece indicar que as mulheres recém-saídas do Egito tivessem uma dança particular para Deus e outra para os interesses seculares. Na verdade, após liderar a saída de Israel do Egito, Moisés se empenhou em reeducar o povo em muitos aspectos os quais sugerem que Israel, após séculos no Egito, tinha se tornado um povo paganizado (ver Êxodo 16, 20, 21, 22, 23, Levítico e Deuteronômio).

Há, em vez disso, uma evidência de que a dança das mulheres não era reverente e ritual. Quando a Bíblia fala das danças das filhas de Siló usa uma palavra da raiz hebraica chûl (Juízes 21:21,23). A dança das mulheres de Israel na celebração de vitória militar se descreve com o termo mechôlah (I Samuel 18:6; 21:11; 29:5; Juízes 11:34).

Como a dança de Miriam e das mulheres para celebrar a vitória divina sobre o exército egípcio é descrita, em Êxodo 15:20? Também com uma palavra da raiz mechôlah. O problema se agrava quando se confirma que uma palavra dessa raiz é empregada em Êxodo 32:19 para descrever as danças (mechôlah) em volta do bezerro de ouro.

Alguns comentaristas afirmam que os israelitas dançaram despidos, naquela festa que se degenerou num ritual pagão. Qual a evidência disto? Quando mandou Moisés descer do monte, Deus disse: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu” (Êxodo 32:7, grifado). Ao descer, quando viu o bezerro e as danças, Moisés quebrou as tábuas da lei, indicando que a aliança daquelas pessoas com Deus estava quebrada (32:19). Arão diz que o povo é “propenso para o mal” (v. 22), e Moisés disse que povo estava “desenfreado” (v. 25). Em Êxodo 32:6, se diz que naquele dia o povo de Israel levantou de madrugada para comer e beber, e “divertir-se”. O verbo empregado para essa diversão (letsacheq) é traduzido por paidzein, na LXX (Septuaginta, versão grega do AT), e indica práticas de caráter sexual. O mesmo verbo é usado para falar de relações íntimas, em Gênesis 26:8 e 39:14. Paulo confirma essa ideia ao interpretar a “diversão” dos israelitas em termos de “imoralidade”, razão por que milhares perderam a vida (I Coríntios 10:6-8). Ellen G. White também confirma que “o culto de Ápis era acompanhado da mais grosseira licenciosidade, e o relato das Escrituras denota que a adoração ao bezerro levada a efeito pelos israelitas foi acompanhada por toda a devassidão usual no culto pagão” (Patriarcas e Profetas, p. 316).

Mas a quem o povo de Israel fazia a celebração no Monte Sinai? Ao bezerro de ouro? Ao boi Ápis do Egito? Arão tinha dito claramente (Êxodo 32:5) que a festa era para o “Senhor” (Yahweh, o Deus do pacto). Essa era a boa intenção dele.

Assim, como Miriam e as mulheres dançaram para Deus, os israelitas no Sinai tinham intenção semelhante. A diferença entre a dança de Miriam e dos israelitas no deserto pode ser só o desdobramento da segunda, quando o povo perdeu os limites. A semelhança é sugerida pelo uso dos mesmos termos, e pelo contexto cultural.

Mas, caso as mulheres de Israel tenham feito uma dança secular para louvar, como Deus pôde aceitar isso? Quando o adorador ainda não tem luz acerca do assunto, a sinceridade do coração é muito importante quanto à aceitação por parte de Deus. Mas isso só até as pessoas saberem o que Deus quer e como ele quer. Deus não considera os tempos de “ignorância” (Atos 17:30).

Se a dança de Miriam para Deus e a das mulheres para os guerreiros era secular bem como aquela feita no Sinai, de que dança fala o Salmo 150?

A palavra hebraica traduzida por “danças” no Salmo 150 é machôl, da mesma raiz chûl. Nesse caso, o salmo não fala de uma dança extraordinária. Fala de dança comum acompanhada por música também comum. Isso pode ser confirmado pela menção de instrumentos diversos.

A ideia de que essa palavra machôl possa ser traduzida no Salmo 150 por “órgão de tubos” ou “flauta” não é relevante porque a combinação “adufes e danças” é técnica. Quando tambores são usados, dançar é natural.

Aqui há um ponto delicado. Se a dança e a música de Israel para Deus era a mesma realizada nas festividades seculares, e se Deus não indicou nada em contrário, então cada cultura poderia louvar a Deus com suas próprias criações musicais e coreográficas, e não haveria restrições para estilos musicais nem danças, nem faria sentido falar de uma música de louvor. Nesse caso, a música e a dança nada teriam de secular ou sacro. A música sacra estaria desacralizada.

Tem a Bíblia algo a falar sobre uma música de louvor?

Deve-se observar que os eventos referidos acima são anteriores à edificação do templo de Salomão, ocasião em que um sacerdócio completo foi organizado, inclusive um sacerdócio para a música de louvor. Esse sacerdócio aponta princípios decisivos para a música sacra.

Descuido penalizado

Logo que consolidou seu reino sobre Israel, Davi quis levar a arca do Senhor para Jerusalém, a cidade de Davi (ou Sião, II Samuel 5:6-7). O transporte da arca e a posterior edificação do templo são eventos cruciais na compreensão do louvor em Israel. Esses eventos estão relatados com riqueza de detalhes musicais nos livros das Crônicas, obra de um sacerdote, e provavelmente também músico.

Os especialistas consideram que os livros de Crônicas e Esdras apresentam características literárias e históricas que sugerem um mesmo autor, o próprio Esdras. Tendo escrito após o exílio babilônico, o autor de Crônicas constrói uma reflexão sobre o passado de Israel e uma lição de fidelidade ao Senhor, à sua Lei e ao culto em seu santuário em Jerusalém. Davi é uma figura central nessa narrativa por causa do interesse do cronista em destacar a natureza e a importância do culto a Deus.

Quem era Esdras? Trata-se de um sacerdote, filho de Seraías, da linhagem de Zadoque, homem piedoso e letrado, influente na corte babilônica, segundo a tradição. Ele próprio diz que “era escriba versado na Lei de Moisés, dada pelo Senhor” (Esdras 7:6), e um mestre da lei (7:12). A tradição judaica o considera como um “segundo Moisés”, pelo papel que desempenhou no retorno dos judeus a Jerusalém e na restauração da lei e do culto a Deus. Esse homem letrado e profundamente temente a Deus conta a mesma história de Reis e Samuel, concentrado no reino de Davi e nas questões do culto a Deus. Seu zelo pelo culto se reflete na forte ênfase dada ao templo, à arca, e à música de louvor, assim como o zelo pela pureza étnica e religiosa se reflete nas longas listas genealógicas.

Narra o cronista que, para transportar a arca, Davi preparou um carro novo (I Crônicas 13:7) e um conjunto de instrumentos musicais para a festa, incluindo harpas, alaúdes, tamboris (adufes), címbalos e trombetas (I Crônicas 13:8). Em II Samuel acrescentam-se “pandeiros” (6:5). O cronista é bastante resumido ao narrar esse evento. Mesmo assim pode-se concluir que não havia nenhuma novidade musical ou litúrgica como parte do louvor a Deus, em comparação com os episódios já mencionados acerca da experiência litúrgica de Israel. A presença de “tamboris” sugere que a música era de ritmo destacado, e promovia a dança, o que Davi e Israel o fizeram à vontade; eles “se alegravam com todo empenho”, isto é, dançavam (I Crônicas 13:8).

Tanto no relato de Samuel quanto em Crônicas, na primeira festa, “Davi e todo o Israel alegravam-se”, ou dançavam (II Samuel 6:5, I Crônicas 13:8). Ao passo que na segunda, se diz que só Davi dançou (II Samuel 6:14, I Crônicas 15:29).

Que tipo de dança teria sido essa? Como a Bíblia a expressa? Tanto em II Samuel 6:5 quanto em I Crônicas 13:8, o verbo usado para a “dança” é o hebraico tsacheq, da mesma raiz de letsacheq, empregado em Êxodo 32:6 para descrever a diversão dos israelitas. A LXX traduz esse verbo nesses três casos com o mesmo verbo paidzô. O sentido exato do verbo hebraico nesta passagem de Samuel e Crônicas é bastante discutido. O significado geral desse verbo é rir, brincar, folgar, dançar, pular, e, às vezes, divertir-se sensualmente. O renomadoTheological Dictionary of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 14:69) diz que o verbo pode indicar uma dança “profana” de Davi e Israel diante da arca, do contrário Mical “dificilmente teria levantado a acusação de nudez e comportamento dissoluto”. O igualmente autoritativo The Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 5:627) diz que o verbo paidzô que traduz o hebraico tsacheq expressa um tipo de dança comum entre os antigos cultos primitivos gregos, e que o mesmo fenômeno se observa no início do culto em Israel, com conotações “orgiásticas”.

Ellen G. White, no entanto, afirma que a dança de Davi foi em “júbilo reverente” (Patriarcas e Profetas, p. 707). O que isso quer dizer? Estaria ela falando da natureza da dança em si? É bom lembrar que Ellen G. White confirma que o verbo hebraico traduzido por “divertir-se” tem conotação sensual (Patriarcas e Profetas, p. 316). Pode ser que, quando fala da dança de Davi, ela não está falando da natureza da dança em si mesma, que é o tópico das obras citadas acima, mas do espírito e objetivo com que ela foi executada. Nesse caso, Davi estaria louvando a Deus de forma reverente, embora empregasse um recurso comum.

Se Davi fez uma dança comum e secular para Deus, embora com reverência, quem reprovaria o rei de Israel? Só uma pessoa íntima que tivesse motivos pessoais para tanto. E quando Mical o censurou por “descobrir-se sem pejo”, como se faz um “vadio”, ele mesmo não a contradisse, limitando-se a afirmar que “ainda mais desprezível” se faria perante o Senhor (II Samuel 6:20-22).

Essa dança de Davi parece ser cronologicamente a última menção de dança associada ao louvor direto a Deus. Mesmo na festa dos tabernáculos, quando, em geral à noite, o pátio do templo apresentava uma cena de grande regozijo, em que, como descreve Ellen G. White, “homens de cabelos brancos, os sacerdotes do templo e os príncipes do povo, uniam-se em festivas danças ao som dos instrumentos e dos cantos dos levitas” (O Desejado de Todas as Nações, p. 463), a ocasião é claramente de caráter social.

O novo cântico

A despeito dos preparativos de Davi e da multidão de Israel que se reuniu, o transporte da arca foi frustrado. Tendo sido Uzá morto pelo Senhor, a arca ficou no meio do caminho. Apesar da morte de Uzá, Davi podia ter carregado a arca até Jerusalém, ele a levou até a casa de Obede-Edom (I Crônicas 13:13). No entanto, Davi ficou temeroso (13:12). Possivelmente ele ainda não estivesse preparado para ter a arca perto de si. Ela foi levada para a casa de um levita (I Crônicas 13:14; 26:4, 8).

Meses depois, tendo passado a ira divina, Davi retomou seu plano (I Crônicas 15:3). Ao passo que o cronista dedica apenas 14 versos para falar do primeiro evento, desta vez ele narra em dois longos capítulos, com variados detalhes acerca da música.

Em I Crônicas 15:11 e 12, é dito que Davi chamou os sacerdotes para planejar o transporte da arca, o que ele não tinha feito na primeira vez. Deve-se considerar um ponto crucial para a leitura do relato: Se Davi tivesse entendido que seu erro consistia em ter colocado a arca num carro e permitido que não-sacerdotes a transportassem, na segunda festa ele alteraria esse ponto e todo o restante faria igual, especialmente a música. Mas não foi isso que aconteceu. Ele combinou que os sacerdotes deveriam levar a arca (15:13), e que eles deveriam fazer a música para louvar a Deus (15:16).

Ao passo que a ordem para carregar a arca é relatada em apenas um verso, o cronista narra a música desse evento em dezenas de versos. Embora informe que Davi tenha dançado (I Crônicas 15:29), o cronista repete várias vezes a lista de instrumentos, que não sugere uma música feita para dançar. Foram usados “címbalos, alaúdes e harpas”, além de trombetas (ver I Crônicas 15:16, 19-21, 28, 16:5, 42). Deve-se notar que a partir desse evento a lista “címbalos, alaúdes e harpas” torna-se uma expressão técnica para a música do templo.

A omissão de tambores e pandeiros em nenhuma hipótese pode ser atribuída a eventual lapso de memória do cronista. Ele repete a lista dos instrumentos cinco vezes só nesse relato. Além disso, um tal lapso seria estranho à extraordinária memória do autor que lembra o nome dos músicos e suas respectivas famílias (I Crônicas 15:17-24), além dos milhares de famílias e gerações que ele lista no início das crônicas (I Crônicas 15:19-21). Isso é ainda mais relevante ao se considerar que ele está narrando fatos ocorridos havia mais de 500 anos. Davi iniciou seu reinado por volta do ano 1000 a.C. Esdras saiu de Babilônia por volta de 450 a.C.

A lista “címbalos, alaúdes e harpas” ocorre diversas vezes, sendo caracterizada como a música do templo. Davi preparou esses “instrumentos” exclusivamente para louvar ao Senhor (I Crônicas 23:5). Os levitas músicos foram consagrados, ungidos ou “separados” para louvarem ao Senhor com “címbalos, alaúdes e harpas” (I Crônicas 25:1 e 6). Na inauguração do templo, os levitas tocavam “címbalos, alaúdes e harpas” ou “instrumentos músicos para louvarem ao Senhor” (II Crônicas 5:12,13). O cronista diz ainda que esses eram os “instrumentos músicos do Senhor, que o rei Davi tinha feito para deles se utilizar nas ações de graças ao Senhor” (II Crônicas 7:6, ver também 9:11).

O cronista usa várias vezes um qualificativo para falar da música de louvor a Deus no contexto do templo, a partir do segundo transporte da arca. Em referência a essa música, ele usa as expressões “hinos” (I Crônicas 16:7), “a música de Deus” (I Crônicas 16:42), “cântico do Senhor” (I Crônicas 25:7), “louvor ao Senhor” (II Crônicas 5:13) e “cântico do Senhor” (II Crônicas 29:27). A expressão “cântico do Senhor” literalmente é “a música do Senhor”.

O início de uma nova fase na história litúrgica de Israel é claramente marcado pelo cronista com a seguinte expressão: “Naquele dia, foi que Davi encarregou, pela primeira vez, a Asafe e a seus irmãos de celebrarem com hinos ao Senhor” (I Crônicas 16:7). Com duas expressões de tempo que delimitam um divisor de águas (“naquele dia” e “pela primeira vez”), esse verso indica que até aquele evento, Israel teve uma experiência de louvor, e a partir dali teve outra.

Essa compreensão de I Crônicas 16:7 é reforçada pelo contexto. Em I Crônicas 15:16, “Davi disse aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, os cantores…”. I Crônicas 16:4 diz que Davi “designou dentre os levitas os que haviam de ministrar diante da arca do Senhor, e celebrar e louvar, e exaltar o Senhor, a saber, Asafe… “. E I Crônicas 25:1 diz que “Davi separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e Jedutum, para profetizarem com harpas, alaúdes e címbalos”.

O transporte da arca para Jerusalém marcou o “início histórico do ministério musical dos levitas em Israel”, e “a nomeação feita por Davi de um ministério levítico para a música e o louvor a Deus marca um significativo avanço para a história do culto em Israel” (The Expositor’s Bible Commentary[Zondervan: Grand Rapids, MI], “I Crônicas 15:16 e 16:4“, 4:387-389 ). Sobre I Crônicas 16:7, o Broadman Bible Commentary (Broadman Press: Nashille, TN) diz que “Davi fez uma nomeação permanente” relativa ao louvor a Deus, para ser dirigido pelos músicos levitas.

Esse episódio mostra não apenas que o louvor a Deus passou por uma mudança litúrgica como também que ele foi institucionalizado para ser dirigido por um sacerdócio ordenado. Os cantores levitas dirigiam o canto de louvores e a congregação tomava parte ativa (I Crônicas 15:28, II Crônicas 23:13). Os sacerdotes músicos eram mais de 10% de todos os sacerdotes (I Crônicas 15:16, 23:3-5). A partir desse evento o ministério do louvor é privatizado aos levitas como todos os demais. Os levitas músicos são listados por famílias, e se diz que os filhos estavam sob direção de seus pais, e todos os músicos eram “instruídos no canto do Senhor” (I Crônicas 25:7). A expressão sugere uma unidade entre as famílias dos músicos que era tecida por esse ministério musical.

O mandado do Senhor

Davi provavelmente fosse inclinado para o ritmo e dança. Além de rei, ele era um músico, e compositor. Que esses eram seus gostos fica claro na música e na conduta dele durante os eventos em questão. E se era assim, o que aconteceu para que ele entendesse que os levitas deviam definir a música da festa do transporte da arca e do templo, sem tamboris e pandeiros? Considerando seus possíveis gostos, Davi não faria isso por sua própria vontade.

Essa ideia está confirmada em II Crônicas 29:25-27. Ali se narra a reforma de Ezequias, em que ele restabeleceu o culto a Deus. A Bíblia declara que o rei reinstituiu a música de “címbalos, alaúdes e harpas” (29:25), a mesma música dos levitas, “segundo mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã”. Mas, eles mesmos inventaram esse padrão musical? Não. “Esse mandado veio do Senhor por intermédio de seus profetas”, revela claramente a Palavra de Deus (ver II Crônicas 29:25).

Ênfase especial é dada aos instrumentos, que além da lista específica, se diz duas vezes que eram “os instrumentos de Davi”, como passaram a ser chamados. Estes são os “instrumentos acerca dos quais Deus, através de Natã e Gade, deu instruções a Davi para que fossem usados no templo (II Crônicas 29:25)”, confirma The Expositor’s Bible Commentary, “II Crônicas 25:1“, 4:424.

Quando Davi recebeu essa revelação por meio dos profetas? Provavelmente no intervalo dos três meses em que a arca esteve na casa de Obede-Edom. Por isso Davi comandou a mudança litúrgica e musical focalizada em Crônicas. A obra The Expositor’s Bible Commentary defende que “Davi agiu sob direção divina, transmitida através dos profetas Natã e Gade” (4:389).

A música feita com esses instrumentos tornou-se um modelo em Israel. Além da reforma de Ezequias que a reinstituiu (por volta do ano 700 a.C.), na reedificação de Jerusalém, Esdras e Neemias retomaram o mesmo padrão, com “címbalos, alaúdes e harpas”, os “instrumentos de Davi” (Neemias 12:27, 36), por volta do ano 450 a.C. De uma presumível predominância dos adufes (tambores) e pandeiros, no modelo anterior ao templo (II Samuel 6:5), o novo modelo deu clara predominância aos instrumentos de cordas, com as harpas e os alaúdes ou saltérios (II Crônicas 29:25). Os címbalos (pratos ou sinos) não podem ser vistos como uma abertura para o uso dos tambores, uma vez que esse instrumento não tem função de acentuar o ritmo como têm os tambores.

A Pictorial Encyclopedia of the Bible (Zondervan: Grand Rapids, MI, 4:315) diz que, na música do templo, “a falta de menção de um amplo grupo de percussão bem como a ausência de corpos de dançarinos podem indicar uma tentativa de evitar semelhança com as formas pagãs de adoração”.

Essa característica da música do templo não pode ser ignorada. Visualizando o louvor na eternidade, em seu cântico o rei Ezequias diz que “tangendo instrumentos de cordas, nós O louvaremos todos os dias de nossa vida, na Casa do Senhor” (Isaías 38:20). O Apocalipse fala de harpas nas mãos dos salvos para louvarem a Deus no Céu (Apocalipse 5:8, 14:2).

Relendo o salmo

Tendo visualizado esse contexto da história litúrgica de Israel, pode-se retomar o Salmo 150. Quem escreveu o salmo? Quando foi escrito? Considerando que a lista de instrumentos do salmo é muito próxima da lista da primeira festa de Davi, o salmo deve ter sido escrito antes dessa festa.

Entre outras fontes de especialistas, a publicação The Septuagint Version (Zondervan: Grand Rapids, MI), diz que o Salmo 150 é “um salmo genuíno de Davi, composto quando ele venceu o combate com Golias”. Nesse caso, quando fala de como louvar, Davi naturalmente expressa a compreensão do louvor a Deus daquela fase de sua vida. A experiência do templo agregou mais luz a essa compreensão.

(…)Isso significa que Salmo 150:4 não seja inspirado? De modo nenhum. Da mesma forma que Jesus não estava dizendo que Moisés e algum trecho do AT (como Deuteronômio 24:1-14, Êxodo 21:23-25, Levítico 24:20, Deuteronômio 19:21, Levítico 19:18, Salmos 139:21-22) não eram inspirados quando ele os aprofundou, dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…” (Mateus 5:33, ver também 5:27, 31, 34), “Eu, porém, vos digo…” (Mateus 5:32, ver também 5:28, 34, 39, 44).

Mais tarde ele explicou por que o critério dado por Moisés estava sendo ampliado: “Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mateus 19:8).

O conhecimento da vontade de Deus se aprofunda e se amplia com o amadurecimento do povo de Deus. Os servos de Deus louvavam com sinceridade e reverência de acordo com os costumes e estilos musicais e coreográficos que eles tinham. Porém, quando esses costumes podem interferir na relação de Deus com seu povo, como ocorreu com Israel no Sinai, ele revela novos e mais elevados padrões, no momento apropriado.

Assim, para se compreender a maneira de louvar segundo a Bíblia, deve-se estudar a partir de um contexto amplo da história do povo de Deus, nunca isolando um texto de seu contexto.
Seria o templo um modelo ou ideal para a igreja?

O templo terrestre é uma representação em dois sentidos. Ele aponta para o Messias vindouro, mas também retrata a santidade do santuário celestial, onde os filhos de Deus serão recebidos por ocasião das “bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:1, 7,8, 7:9), e quando com harpas cantarão o “cântico novo” (Apocalipse 14:2-3). A “noiva” que se “atavia” para as bodas é a igreja que se prepara para estar lá, na presença de Deus, para o louvor no próprio santuário celestial.

Ellen G. White diz que “da santidade atribuída ao santuário terrestre os cristãos devem aprender como considerar o lugar onde o Senhor propõe encontrar-se com seu povo”. Ela acrescenta que “as coisas sagradas e preciosas, destinadas a prender-nos a Deus, estão quase perdendo sua influência sobre nosso espírito e coração, sendo rebaixadas ao nível das coisas comuns”. E por fim, compara, “para a alma crente e humilde, a casa de Deus na Terra é como a porta do Céu. Os cânticos de louvor, a oração, a palavra ministrada pelos embaixadores do Senhor, são os meios que Deus proveu para preparar um povo para a assembléia lá do alto, para a reunião sublime à qual coisa alguma que contamine poderá ser admitida” (Testemunhos Seletos, vol. II, p. 193).

Essa visão de um padrão de louvor indicado por Deus deve pavimentar um caminho de princípios para a música litúrgica em todos os tempos.

Vanderlei Dorneles, doutorando pela Universidade de São Paulo, é professor no Unasp, Engenheiro Coelho.

O Sábado da Criação



Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” (Ex 31:13, RA).

O Dr. Hans LaRondelle escreveu o seguinte, em relação ao Sábado: “O sábado foi criado, desde o princípio, para prover um espaço para a comunhão santificadora entre Deus e o homem.” (Christ Our Salvation, p. 70)

Esta declaração nos faz pensar em Adão e Eva na perfeição de sua criação. As palavras do Senhor, explicando que Ele deu o sábado para que soubéssemos que “Eu sou o SENHOR, que vos santifica” tem um significado especial para a humanidade caída. Mas, Adão e Eva foram criados santos. Por que precisavam que uma comunhão santificadora com seu Criador?”

À parte da criação animal os seres humanos foram criados com habilidades maravilhosas. Eles podiam pensar, isto é, pensar da causa para o efeito, e então criar idéias que antes não existiam. Como administradores do jardim e da terra, tinham escolhas a fazer.

Assim como todos os seres humanos, eles estavam cheios de curiosidade. Tinham a exuberância da juventude. Havia tanto para se ver. Havia tanto para ser desfrutado. Os dias eram provavelmente muito curtos para fazer tudo que queriam fazer.

Seus maravilhosos dons e a magnífica criação ao redor poderiam facilmente absorver todo seu pensamento e tempo. Suas habilidades, e o prazer e o estudo do mundo natural não devia tornar-se o principal objetivo de sua vida, pois os separaria do Criador. Para Adão e Eva, e certamente para todos os seres humanos, para se viver e operar devidamente é necessária uma unidade com o Criador.

O Perigo

As seguintes palavra do Dr. Edward Heppenstall descrevem o perigo que existia para Adão e Eva. Criados à “imagem de Deus”, com possibilidades tão grandes diante de si, eles podiam esquecer a Deus.
“O homem nunca deve pensar em si como sendo separado de Deus. O homem não possui qualidade através das quais funciona independente de Deus.” (“Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos…” At 17:28). “No momento em que o homem pensa em si como independente de Deus, destrói sua identidade. Ele já não pode ver a si mesmo ou compreender a sim mesmo como homem”. (Veja Jo 15:5; 17:21-23, Ef 1:10)
Uma citação de Isaías 14:12-14:
“Satanás destronou Deus de sua vida e colocou a si mesmo lá, (no trono). Essa declaração para uma vida independente de Deus era uma declaração de guerra contra o Criador do céu e a da terra. Essa guerra começou no Céu e mudou-se para a terra (veja Ap 12:7-9) (Edward Heppenstall, Salvation Unlimites, p. 8, 11).
A teoria da evolução e também o “naturalismo”, declaram independência de Deus. Elas ensinam que tudo que existe é o universo físico, e toda verdade deve vir da experiência humana e do estudo do mundo físico. Por mais de um século essas teorias dominaram o aprendizado e o ensino. O resultado é uma sociedade amoral na qual cada um decide por si mesmo o que é correto. A sociedade humana não pode existir em paz e segurança sob tais circunstâncias.

A Provisão de Deus

Gênesis 1:31 diz: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.” A criação física se completou em seis dias. Então porque Deus não indicou uma semana de seis dias?

Porque os seres humanos precisam mais do que a criação física pode dar. Posses, coisas materiais são inadequadas para suprir as necessidades dos humanos que foram criados à imagem de Deus. “Não só de pão viverá o homem…” A prescrição de Deus é que precisamos descansar das coisas do tempo e espaço e precisamos comunhão com nosso Criador e Redentor.

Naquele primeiro sábado, Adão e Eva descobriram quem eles eram, e de onde vieram. Começaram a compreender sua posição e propósito na terra. Apenas estando unidos a Deus podiam eles perceber a inteireza de tudo que o ser humano foi criado para ser. Apenas estando unidos a Deus podia o ser humano manter-se moralmente santo. Nunca foi intenção que o homem se tornasse independente de Deus. Adão e Eva precisavam de um descanso semanal de todos os prazeres que encontraram. Esse descanso em Deus era para o seu próprio bem. Precisavam estar conectados ao seu Criador. Precisavam de uma “comunhão santificadora entre Deus e o homem”. Então Deus, através de Seus atos, e por Suas palavras, “fez o sábado” (Gn 2:1-3).

O sábado não foi indicado, como os dias de festas. Foi feito por uma ação de Deus. Tão certo como as árvores, os animais e todas as coisas feitas por Ele, assim existe o Sábado do sétimo dia, pela criação de Deus (Gn 2:1-3). Jesus disse: “O sábado foi estabelecido por causa do homem” (Mc 2:27, 28). Cristo é o Senhor do Sábado. Ele, não os fariseus, nos mostra o seu propósito. É para o nosso bem. Ele, não os fariseus, nos mostra como “santificá-lo”.

Ele conheceu Seu povo. Ele os ensinou. Sua presença realizou o milagre da transformação de vidas (Lucas 4:16, 31-15). Pense naqueles primeiros discípulos que O seguiram em Seu ministério. Eles experimentaram o sábado de um modo novo e abençoado. Era tão diferente da guarda do sábado, prescrita pelos fariseus. Para eles o sábado tornou-se um dia de refrigério. Deus estabeleceu este momento semanal para estarmos com Ele. É tão necessário como, a ar que respiramos, o alimento e a família.

Pense no que Deus nos deus. Muitos adultos, olhando para traz, dizem: “Papai estava sempre trabalhando. Ele nunca tomou tempo para ficar conosco. Ele nos dava coisas, mas eu realmente não o conheço”. Nosso grande Criador toma tempo de Sua administração do Universo para uma comunhão semanal especial com Seu povo de fé.

O sábado da criação nos diz: “Não estamos sozinhos”. Não é como Jacques Monod, cientista e ganhador do prêmio Nobel escreveu: “O homem finalmente sabe que ele está sozinho na infinita imensidão do universo” (Chance and Necessity). Ele quer que acreditemos que nossa existência é resultado de acontecimentos não provados do acaso. Que estamos à deriva em um universo sem propósito ou significado para a nossa existência, exceto aquilo que nossa imaginação pode suprir.

O que teria sido para Adão e Eva terem adquirido consciência e não conhecerem nenhum outro ser? O senso de estar completamente sozinho, em um lugar novo sobre o qual você não conhece coisa alguma, é uma condição assustadora. O que teria sido deles? Tudo que podiam fazer era aprender do que os animais faziam e reagirem. Naquele sábado da criação eles aprenderam que não estavam sozinhos. Mais que isso, experimentaram que o “Deus Criador” também era “Pai”.

O Sábado da Criação Hoje

“Portanto, resta um repouso para o povo de Deus… Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4:9, 14).

(Lúcifer disse: “…serei semelhante ao Altíssimo.”, e para Eva “…vocês serão como Deus…”  Is 14:14; Gn 3:5, NTLH)

A independência de Deus surge da autolatria e resulta no pecado. A independência de Deus rompeu a linha de comunicação que Adão e Eva tinham com Deus. Resultou na decadência e morte. É a causa de todo mal.

Cristo através de Sua vida e morte se tornou o novo “meio de contato”. Agora, como nosso Sumo Sacerdote, “também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus” (Hb 7:25).

Guardar o Sábado em Cristo é uma questão de fé em Cristo. As pessoas precisam conhecer a bênção do descanso do Sábado de Deus. Quando participamos do Sábado de Deus o descanso de torna um sinal da nossa fé em Deus, e da nossa dependência dEle, como Criador, Redentor e Salvador da raça humana. O poder que “… estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida…” e que efetua o “novo nascimento” é o mesmo poder pelo qual todas as coisas foram criadas, e que ressuscitou Jesus da morte. (Ef 2:5; 1:19, Jo 3:3, 5, 6)

Deus como Criador é também uma grande questão na ciência. Não devemos negar nosso “Criador e Redentor”. O apelo final de Deus convida o mundo: “Temei a Deus e dai-lhe glória… e adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Ap 14:7).

“Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”, é a testemunha de fé que Deus é Criador. Testifica de Cristo, e da salvação que Ele proveu para nós através de Sua morte na cruz. Testifica que é Seu poder que nos cria para sermos uma nova pessoa. Ele nos elevou e nos capacita a viver diariamente “em novidade de vida” (Rm 6:1, 11). Ele é Aquele que nos santifica, e “Aquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24, 25).

Apenas Deus pode tornar uma pessoa santa. “…guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica”.

Existe uma obra especial que Deus faz nos crentes quando colocam à parte seus próprios negócios e atividades e focalizando no Senhor Jesus Cristo, “Lembram do dia de sábado, para o santificar”.

Toda a vegetação se volta para luz. Ao fazer isto, a energia do sol causa mudanças na planta. Do mesmo modo, o sábado nos convida a deixar de lado nossas atividades semanais que consomem tempo, e nos voltarmos completamente ao nosso Senhor e Salvador. Ao O contemplarmos, em Sua Palavra, em Suas obras na natureza, e em Sua obra por nossa salvação, mudanças ocorrem em nós. 2 Co 3:18, estamos sendo transformados, e O adoramos!

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura…” (2 Co 5:17). O sábado é e para sempre será uma parte da criação original de Deus e de Sua nova criação (Is 66:23).

A religião enfrenta o fundamentalismo ateu


 
Enquanto estava pregando em Alberta, Canadá, fiz uma referência de passagem sobre o ateu britânico Richard Dawkins. Não esperava que o nome fosse registrado por alguém na plateia. Fiquei surpreso quando uma jovem mulher me abordou sobre minhas observações no final da pregação.

“Há uma pessoa no escritório onde trabalho, um amigo meu. Ele está lendo Dawkins e está muito impressionado. Você sabe de alguém que responda para ele – qualquer livro que eu possa recomendar?”

“Alister McGrath”, disse, enquanto ela escrevia: “O nome de seu livro é O Delírio de Dawkins.” O subtítulo do livro é: “Uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins.”1 McGrath, um ateu que se tornou cristão, fez doutorado em biofísica molecular em Oxford. Ele apresenta, em seu livro, uma resposta magistral a Dawkins. Este artigo está centrado na resposta de McGrath a Dawkins, com minha própria posição crítica. A ideia inicial para este artigo surgiu quando ouvi McGrath dar uma poderosa resposta a Dawkins durante uma conferência em Cambridge, Inglaterra, em abril de 2007.

Assim, do que trata Dawkins?

Vomitando veneno
O título do livro de Dawkins, Deus, um Delírio,2 diz tudo – não necessita de subtítulo. Já no prefácio, ele coloca as cartas na mesa: “Se este livro funcionar do modo como espero”, diz ele, “os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem” (Dawkins, p. 23).

A arrogante previsão pode fazer alguém estremecer um pouco. De que material quebradiço é a fé que tenho? Mas então, como se ele próprio se apoiasse para um completo nocaute em menor grau, Dawkins joga uma irrisória advertência na mistura: “É claro”, ele diz, “que fiéis radicais são imunes a qualquer argumentação, com a resistência erguida por anos de doutrinação” (Dawkins, p. 23).

Aprofundando-se mais no tema no capítulo 2, este professor de ciências de Oxford se transporta rapidamente a seu alvo principal: “O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção [as palavras são carregadas]: ciumento e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo” (Dawkins, p. 43).

Tal como Dawkins vê, muitos dos problemas do mundo vêm por seguirmos cegamente a esse ou a outros caprichosos deuses – ficções da mente humana. Semelhantemente ao famoso Beatles John Lennon, ele ousa sonhar com “um mundo sem religião”. Seria um lugar “sem ataques suicidas, sem o 11/9, [...] sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, [...] sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição a judeus como ‘assassinos de Cristo’, [...] sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro dos ingênuos” (Dawkins, p. 18, 19). Convenientemente, Dawkins ignora os massacres de incalculáveis milhões por ateus tais como Adolf Hitler e Joseph Stalin.

As pessoas inteligentes não se interessam por religião – e especialmente os cientistas! “Grandes cientistas que professam religião”, diz Dawkins, “se destacam por sua raridade e são objeto de uma perplexidade divertida por parte de seus pares da comunidade acadêmica” .3 Dawkins diz que certa vez perguntou a Jim Watson, “gênio fundador do projeto Genoma Humano”, “se ele conhecia muitos cientistas religiosos naquela época”. Watson respondeu: “Virtualmente, nenhum” (Dawkins, p. 112).

Em resposta a essa reinvindicação, no entanto, McGrath destacou que naquele mesmo ano em que Deus, um Delírio foi publicado (2006), “Owen Gingerich, um notável astrônomo de Harvard, produziu um livro intitulado God’s Universe, declarando que ‘o universo foi criado com intenção e finalidade e que esta crença não interfere na iniciativa científica.’ Francis Collins publicou seu Language of God, no qual argumenta que a maravilha e a ordem da natureza apontam para um Deus Criador, muito mais na linha da tradicional concepção cristã. [...] E o cosmólogo Paul Davies publicou seu Goldilocks Enigma, discutindo a existência de ‘delicados ajustes’ no universo” (McGrath, p. 33).

“A base do itinerário de Deus, Um Delírio”, diz McGrath, é que “o ateísmo é a única opção para as pessoas sérias, avançadas e pensantes”.4 A experiência religiosa está “associada com a atividade patológica do cérebro” (McGrath, p. 33, 66). O evangelho, diz Dawkins, é ficção, é como se apelar para a geração vindoura. Dawkins oferece algo parecido a uma garantia espiritual: “É possível ser um ateu feliz, equilibrado, ético, intelectualmente realizado” (Dawkins, p. 18).

É um esforço consciente, calculado da parte de Dawkins – uma “batalha épica contra a religião”. É como McGrath o define (McGrath, p. 51). Para ele, Dawkins vê a ciência e a religião como “travadas em uma batalha de morte. Somente uma pode emergir vitoriosa – e deve ser a ciência” (McGrath, p. 46). O objetivo de Dawkins, diz McGrath, é “a destruição intelectual e cultural da religião” (McGrath, p. 24). Ele golpeia para matar; para acabar com o cristianismo de uma vez por todas.

O tendão de Aquiles de Dawkins

Deus, um Delírio não é um livro pequeno. Suas 420 páginas contêm uma multidão de reivindicações e acusações, tornando uma resposta detalhada impossível. Com isso em mente, quero destacar aquilo que considero o tendão de Aquiles de Dawkins: toda a estrutura.

Em um resumo dos seis pontos do capítulo “Por que quase com certeza Deus não existe”5 (penso que é o capítulo pivô do livro), o primeiro ponto de Dawkins talvez encerre o ponto central do livro: “Um dos grandes desafios para o intelecto humano, ao longo dos séculos, vem sendo como explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no universo.” 6

Como Dawkins lida com esse desafio básico? Esse é o problema aqui.

Dois argumentos criacionistas o preocupam neste contexto: (1) o argumento da improbabilidade; e (2) o argumento da irredutível complexidade.

1. Improbabilidade. Em termos simples, o argumento da improbabilidade sugere que a complexidade que vemos no interior e ao nosso redor exige que haja uma inteligência superior por trás de tudo. Ou, para parafrasear o modo como o próprio Dawkins descreve (citando Fred Hoyle): A probabilidade de a vida ter surgido na Terra, por si só, é equivalente à “chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho e ter a sorte de construir um Boeing 747” (Dawkins, p. 123).

No entanto, diz Dawkins, tais argumentos aparentemente convincentes, são feitos somente por aqueles que não sabem nada sobre o processo de seleção natural (Dawkins, p. 124).

Citando Daniel Dennett, a quem ele descreve como o “filósofo cientificamente esclarecido”, Dawkins argumenta que não tem como “uma coisa superinteligente fazer uma coisa menor”. O leigo tentaria fabricar um exemplo de design inteligente sugerindo que “você nunca verá uma ferradura fazendo um ferreiro” ou “um vaso fazendo um ceramista”. Mas Dawkins diz confiante: “A descoberta por Darwin, de um processo viável que faz uma coisa tão contrária à nossa intuição, é o que torna sua contribuição ao pensamento humano tão revolucionária.”7 Incrível!

O que está sendo defendido aqui por Darwin, Dennett e Dawkins é que contrária à intuição, ferraduras fazem ferreiros! Um pensamento extraordinário, com certeza!

E como isso acontece? Não por acaso (Dawkins odeia esta palavra), mas por seleção natural (Dawkins, p. 131). “A seleção natural”, diz Dawkins, “é o maior guindaste de todos os tempos. Ela elevou a vida da simplicidade primeva a altitudes estonteantes de complexidade, beleza e aparente desígnio que hoje nos deslumbram” (Dawkins, p. 87).

O resultado final do seu argumento é que, uma vez que a seleção natural é responsável por tudo o que vemos ao nosso redor, “Deus é um delírio”. Tal lógica confunde a cabeça e exige que as pessoas abandonem o senso comum.

2. Complexidade irredutível. Popularizado por Michael J. Behe em A caixa preta de Darwin8, a complexidade irredutível sugere que as formas de vida que hoje conhecemos – mesmo as mais simples – são compostas de integração, de componentes interdependentes, sendo por demais complexas para terem evoluído pouco a pouco através do acaso ou pela seleção natural. Neste contexto, Darwin apontou para seu próprio olho como suscitando um problema particularmente difícil – e Dawkins repete as palavras de seu mestre. Darwin disse: “Supor que o olho, com todos os seus inimitáveis artifícios para ajustar o foco a várias distâncias, para admitir várias quantidades de luz e para corrigir aberrações esféricas e cromáticas, tenha sido formado pela seleção natural parece, confesso abertamente, o grau mais elevado de absurdo” (Dawkins, p. 134).

É uma observação extremamente irrefutável. Mas Darwin (com Dawkins o apoiando) encontraria uma forma em torno disso. A opinião de Darwin, de acordo com Dawkins, foi meramente um “dispositivo retórico” para seduzir seus oponentes para mais perto dele. Assim, poderia administrar um golpe mais forte. Esse golpe, diz Dawkins, “era a explicação simples de Darwin sobre como de fato o olho evoluiu gradativamente” (p. 134).

Para se ter a explicação de Dawkins para tal proeza, vejamos uma parábola que ele usou no livro A Escalada do Monte Improvável.9 Ele imagina uma montanha com um despenhadeiro em um lado, “impossível de escalar”. Mas “o outro lado é uma encosta de subida amena até o topo”. “No topo, está um dispositivo complexo, como um olho.” Os proponentes de design inteligente sugeririam que tal complexidade “possa se montar sozinha, espontaneamente”10, mas é uma “ideia absurda”, ele argumenta, pois seria como “por um pulo só, do pé do penhasco até o cume” (Dawkins, p. 133).

Mas Dawkins sugere que a evolução, em vez de tomar o lado íngreme da montanha, pois não é o caminho apropriado, “vai por trás da montanha e pega a subida amena até o topo: fácil!”

Assim, o quadro que Dawkins descreve é de uma vasta quantidade de materiais primordiais (como se nós soubéssemos de onde tais coisas vieram!) lentamente ascendendo o “Monte Improvável”. Cada unidade particular, em algum momento, chega ao estado máximo de complexidade. Então, de alguma forma, liga-se com outras complexidades para formar discretas, vigorosas entidades que funcionam! Talvez impressionado pela fantasia de tudo, Dawkins diz que “se a complexidade irredutível puder ser adequadamente demonstrada, isso arruinará a teoria de Darwin” (Dawkins, p. 136).

Mas a complexidade irredutível não necessita de demonstração, ela é a realidade. E é difícil ver por que qualquer um substituiria a especulação irracional de Dawkins pela simples seriedade da afirmação bíblica: “No princípio criou Deus [...]” (Gênesis 1:1, ARA).

Onde me apoio

O período contemporâneo tem visto uma onda de ataques a Deus, à Bíblia e a todas as coisas religiosas –

O ecumenismo no novo milênio


Há setenta e cinco anos, William Temple, o então arcebispo de Cantuária, denominou o movimento ecumênico de “o grande fato novo de nossa era”. Todavia, com a passagem do tempo, o ecumenismo tornou-se não mais novo, mas menos original e vital. Ele atingiu o zênite por volta de 1970. Reinava certa euforia após o Concílio do Vaticano II. A unidade organizada das igrejas era vista como uma possibilidade real. Esperava-se que a Igreja Católica Romana logo se uniria ao Concílio Mundial das Igrejas. Estavam florescendo entre as igrejas diversas e significativas uniões e diálogos.

Muitos observadores do cenário ecumênico consideravam a Conferência Missionária Internacional de Edimburgo, em 1912, como o berço do movimento ecumênico. A partir dela, desenvolveram-se três correntes ecumênicas independentes (embora inter-relacionadas): (1) o Conselho Missionário Internacional, (2) A Comissão de Fé e Ordem (teologia), e (3) O Movimento de Vida e Obra (questões socio-econômicas). Essas correntes uniram-se em 1948 e 1961 para formar o Concílio Mundial das Igrejas (CMI), com sede em Genebra, Suíça. O CMI teve início em 1948 com 147 igrejas e conta mais de 330 como filiadas, na maioria igrejas nacionais. Foram realizadas oito assembléias, a última em Harare, Zimbábue, em dezembro de 1998.

Nos anos formativos do movimento ecumênico, a Igreja Católica Romana ficou de fora e mostrava-se geralmente hostil ao CMI. Com efeito, houve diversas advertências tanto do Papa como do Santo Ofício quanto às relações ecumênicas. Então, de um modo dramático, a Igreja Católica Romana voltou atrás e em 1964 aceitou o ecumenismo no Concílio Vaticano II. Um ano mais tarde, outro avanço ocorreu quando o Concílio Vaticano admitiu o conceito de liberdade religiosa. Essas duas modificações radicais da política anterior estão correlacionadas. É difícil concordar com o ecumenismo sem ao menos alguma forma de liberdade religiosa. Hoje Roma desempenha um papel de liderança no movimento ecumênico e é a igreja mais envolvida em diálogos inter-confessionais e institutos ecumênicos. De alguma maneira, isso era de se esperar, visto ser ela de longe a maior igreja cristã.

Mas a grande questão ecumênica que agora nos confronta é: Quão real e quão forte é o movimento ecumênico hoje, ao enfrentarmos os incertos anos do novo milênio? É tempo de um reexame de realidades.

Exame de realidade 1: Ilusão de unidade organizada

A realidade está finalmente começando a ser reconhecida no movimento ecumênico. Hoje, a maioria dos ecumenistas parece reconhecer que a unidade mundial organizada das igrejas cristãs é uma ilusão. Além disso, a Igreja Católica não se unirá ao Concílio Mundial de Igrejas como constituído presentemente. Embora tenha havido muitos diálogos bem-sucedidos entre os teólogos, houve entre as igrejas relativamente pouco interesse na unidade organizada, e apenas um efeito muito modesto sobre a vida e a doutrina da igreja.

Exame de realidade 2: Declínio


Outro aspecto da realidade no novo milênio é que as chamadas igrejas da corrente central — as igrejas consideradas como as mais envolvidas no Concílio de Igrejas — entraram em declínio. Seria mais correto chamá-las de igrejas da “velha linha” ou “linha marginal”, especialmente com perda considerável de membros em certos países.

O crescimento da igreja pertence agora aos evangélicos conservadores, pentecostais, batistas e adventistas do sétimo dia. Essas igrejas tendem geralmente a ser hesitantes ou mesmo positivamente adversas ao ecumenismo.

Exame de realidade 3: O perigo do fundamentalismo

Ao entrarmos no novo século, tem-se tornado mais e mais claro que o crescente fundamentalismo religioso ou extremismo é um poder que precisa ser levado em consideração. Sob certos aspectos, ele é uma reação tanto contra o ecumenismo como contra a secularização. O fundamentalismo é perigoso para a liberdade religiosa porque seus sectários não somente estão convencidos de que possuem a verdade, mas se sentem na obrigação de impô-la aos outros. O nacionalismo é outra tendência contemporânea. E quando o nacionalismo se une com o fundamentalismo religioso, como é o caso em muitos países hoje, formam uma mistura explosiva que é contrária tanto à liberdade religiosa como ao ecumenismo, para não dizer destrutiva de ambos. De fato, há em certas partes do mundo o perigo real de “limpeza” não somente étnica como também religiosa.

Exame de realidade 4: Unidade orgânica versus unidade visível

O sonho de “unidade organizada” entre as igrejas está agora sendo substituído nos círculos da CMI pela visão de unidade visível com enfoque em três pontos essenciais: (1) aceitação do batismo de uns pelos outros, (2) intercomunhão (aceitação do serviço eucarístico entre as igrejas) e (3) reconhecimento mútuo de cada ministério ordenado. Nesse contexto, deve ser dito que embora os adventistas do sétimo dia pratiquem comunhão aberta, eles só aceitam o batismo por imersão como válido. A despeito de reconhecerem que os ministros de outras igrejas que exaltam a Cristo são “pastores do rebanho” e estão envolvidos no plano divino para a evangelização do mundo, a Igreja Adventista não reconhece simplesmente a ordenação ministerial de outros grupos religiosos e particularmente o conceito de “sacerdócio” com todas as suas conotações históricas e teológicas.

Exame de realidade 5: O consenso ecumênico de Roma

Presentemente, o consenso ecumênico dentro da Igreja Católica Romana é de buscar ao menos uma medida de acordo em cinco áreas principais: (1) a relação entre a Escritura e a tradição; (2) a Santa Ceia como um sacrifício memorial envolvendo a presença real de Cristo; (3) a ordenação tríplice de diácono, presbítero e bispo na sucessão apostólica; (4) o magistério ou autoridade magisterial do Papa e dos bispos, incluindo a primazia papal universal; e (5) o papel da Virgem Maria como mãe e intercessora.

É aqui que surge um vasto obstáculo teológico. Protestantes e católicos estão ainda muito distanciados em vários pontos, embora não tão longe como pareciam estar no passado, como foi recentemente indicado pela declaração de acordo entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial com respeito à justificação pela fé. Com efeito, tem havido uma reaproximação surpreendente entre evangélicos conservadores e católicos romanos. Embora essa convergência não deva ser exagerada e o abismo doutrinário ainda seja grande, é preciso reconhecer que há uma cooperação crescente em termos de linhas sócio-políticas, especialmente quanto ao aborto, casamento e valores familiares.

Exame de realidade 6: O problema do proselitismo


Uma questão com implicações ecumênicas que vem sendo cada vez mais discutida diz respeito ao proselitismo. Outrora um termo de boa conotação, “proselitismo” tem recebido sentidos pejorativos em anos recentes. No passado, referia-se essencialmente à conversão de uma pessoa de uma crença para outra, que é precisamente do que trata o evangelismo. Hoje ele é por vezes usado com referência a testemunhos corruptos — isto é, ao uso da coerção e de incentivos materiais, ou à divulgação de informações falsas a fim de conquistar conversos. Alguns indivíduos vão ao ponto de usar o termo “proselitismo” para se referir a qualquer evangelismo entre pessoas já batizadas, não importando se têm uma ligação viva com Cristo ou com uma igreja cristã.

É melhor falar-se de “proselitismo falso” quando se referindo a métodos errôneos de evangelismo. De outro modo, há o perigo de condenar o evangelismo em geral, pelo menos em algumas partes do mundo. Tal posição é inaceitável, porque testemunho e evangelismo são mandados divinos para os cristãos. Ademais, o direito de alguém ensinar e disseminar sua religião é reconhecido hoje como um direito humano. Igualmente o é o direito de receber informação religiosa e mudar de religião. O evangelismo torna-se proselitismo falso quando uma pessoa ou grupo fazem afirmações falsas e acusações, quando há bajulação e são dados incentivos materiais como estímulo para mudar ou manter uma religião, e quando disputas, ódio, competição antagonís rejas por maioria de voto. Preferem que as decisões sejam tomadas consensualmente. Alguns líderes ortodoxos têm mesmo sugerido a criação de uma segunda câmara (como muitos parlamentos têm), e propõem que a representação seja feita mediante quatro famílias de igrejas: Catolicismo Romano, Ortodoxos, Reformados e Livres. De outro lado, as igrejas ortodoxas fazem uma contribuição financeira diminuta para o Concílio.

Como já referido, a Igreja Católica Romana não tem planos de juntar-se ao Concílio e tornar-se uma igreja entre outras 300. Como poderia? Roma é muito mais poderosa e influente do que Genebra, onde o Concílio tem sua sede! Tem-se a impressão crescente de que talvez o Concílio Mundial das Igrejas precise da Igreja Católica para fazer funcionar a máquina ecumênica.

É sempre perigoso profetizar, especialmente sobre o futuro! Contudo, algumas coisas parecem claras. Os adventistas do sétimo dia têm tradicionalmente atribuído um papel apocalíptico, tanto aos Estados Unidos da América como ao Papado. Há agora somente uma super-potência política — os Estados Unidos — e uma só superpotência político-religiosa — o Papado, a Igreja Católica Romana.

Dentro dessa contextuação, para usar um termo esportivo, o Concílio Mundial das Igrejas está realmente jogando nas “ligas menores”. O crescente papel geopolítico de Roma é evidente. Cada vez mais, o Papa é visto como o porta-voz do cristianismo e, talvez, das religiões do mundo. Mesmo os muçulmanos o chamam agora “Santo Padre”. O cenário escatológico-profético está se erguendo.

Bert B. Beach (Ph.D. pela Universidade de Paris, Sorbonne) é diretor de relações entre igrejas da Associação Geral de Adventistas do Sétimo Dia. Seu endereço: 12501 Old Columbia Pike; Silver Spring, Maryland, 20904; EUA.

(Bert B. Beach - Diálogo Universitário)